quarta-feira, 3 de março de 2010

Abaixa-luz


Depois do primeiro contato com a verdade, sobra na boca o gosto amargo da maldade. Porque passamos a vida num mundo de fantasia, evitando a realidade, a vida como ela é e a desfaçatez das relações que estabelecemos com o mundo a nossa volta.
A vida é como um tirano que sacrifica camponeses em troca de poder. Déspota ilustrado que mantém a ignorância em troca de falsas alegrias. E quando você se encontra derrotado, a morte chega sorrateira, ceifando aquilo que você creu que conquistou (e essa é uma outra grande falácia).

Ao me deparar com a verdade, perdi o ar e calei meu canto retumbante. Aqueles segundos intermináveis bradaram debochados quão tolo fui até agora, crendo que minha vida era só aquilo tudo que eu tinha. Pensei: e agora, o que farei frente a tal constatação? Diante de tantas lembranças esquecidas, padeci de uma mudez pouco convencional e ensimesmei. E desde então pergunto-me: por quê as obviedades são sempre tão difíceis de se perceber?

Tudo o que vivi até agora, todos os amores, desilusões, invenções e relações, foram na verdade uma grande mentira. Criei tantos personagens, tantas pessoas, tantos acontecimentos apenas para deixar no baú aquilo que eu mais desprezei: a nudez dos fatos.

Pus véus negros em tudo o que me incomodou e passei a conviver num mundo imaginário, fantasia de menino vivida por um homem. Meu choro, meu riso, meu canto e minha fala. Tudo mentira. Serviu apenas para manter na caixa de Pandora as dores da minha humanidade.

Mas agora isso é passado. Preciso encarar os fatos.

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